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Crítica | O Escandâlo (2020) – Festival do Rio 2019

Dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, O Escandâlo (Bombshell no original) é um brilhante e saltitante manifesto a favor das mulheres. Roach tem seu trabalho fundado em comédias, mas com Bombshell o diretor mostra sua versatilidade, criando um docudrama empolgante e com um bom desenvolvimento. Mesmo que não traga nenhuma novidade no seu modo de gravação, o filme sabe contar sua história sombria de forma atraente e comovente.

Bombshell começa um pouco antes do debate dos primeiros candidatos republicanos à presidência em agosto de 2015 nos EUA, mostrando a repórter Megyn Kelly (Charlize Theron) se preparando para a mediação. Logo, o filme se torna um relato ficcional das mulheres que derrubaram Roger Ailes, presidente e diretor executivo da Fox News, por assédio sexual.

O diretor e a roteirista possuem um grande desafio ao abordar uma história verídica sobre assédio sexual, machismo e entre outras discriminações as mulheres, visto que estamos uma atualidade em que o preconceito contra as mulheres está sendo erradicado. Porém, a dupla sabe fazer isso de forme excelente! Aqui, o filme sabe abordar o sexismo de sua forma crua e real, com os grandes chefões da emissora, reproduzindo um preconceito de igualdade. Além de mostrar as agressões comuns que as mulheres, mesmo aquelas com grande privilégio, podem suportar simplesmente em um dia normal, incluindo “elogios” desumanos. Por exemplo, quando Megyn (Charlize Theron) percorre o prédio da emissora enquanto os homens a avaliam, ela não para. Ela continua marchando.

O Escandâlo tem um elenco GIGANTE de famosos, e sim, quando digito gigante em caixa alta, é porque em cada cena colocada em tela, você irá reconhecer uma persona de hollywood. As estrelas, com seus talentos impecáveis, são uma maneira astuta de atenuar o ceticismo e chamar a atenção para o filme. Brooke Smith (Ray Donavan), Connie Britton (9-1-1), Malcolm McDowell (Laranja Mecanica), Allison Janney (Eu,Tonya), Brigette Lundy-Paine (Atypical), Liv Hewson (Santa Clarita Diet), Ben Lawson (Designated Survivor), Kate McKinnon (Yesterday), essas são algumas das estrelas escaladas para o filme, e eu poderia fazer uma crítica inteira falando de como elas fundamentam o sistema de Bombshell, mas vamos a parte interessante do elenco.

Charlize Theron interpreta Megyn Kelly, ela é uma guerreira e Theron faz você acreditar que, com sua postura radical e segurança absoluta, Megyn poderia liderar um exército ou talvez uma rebelião, se ela quisesse. Charlize nunca implora pelo amor do público. Ela pode parecer remota, mas também é extremamente autônoma: ela é uma fortaleza. Já Nicole Kidman vive Gretchen Carlson, a mulher que derruba o primeiro dominó. Roach exagera no sentimentalismo do personagem, especialmente com cortes periódicos para seus filhos. Kidman também torna Gretchen a parte cômica do filme, ressaltando o quão egoísta e fútil são seus gestos rebeldes na rede, por exemplo, quando ela aparece na câmera sem maquiagem.

Agora vamos falar de quem rouba a cena em Bombshell, sim, Margot Robbie consegue partir nossos corações como a fictícia Kayla Pospisil. Robbie aprofunda as emoções do filme como uma garota de ouro persuasivamente doce, autodeclarada milenar evangélica, que é brutalizada por Roger. A atriz entrega uma das cenas mais dolorosas do filme, quando Kayla vai conversar com Roger Ailes (Russell Crowe), e o mesmo pede para ela se levantar e dar uma volta, mas depois, quando ele pede que ela suba a saia um pouco mais alto, e então mais alto ainda, Robbie nos deixa sentir a agonia da panela de pressão que está acontecendo dentro da personagem. É uma cena excruciante, mas o drama é sustentado sem fôlego, transmitindo o horror do assédio sexual, uma degradação que penetra no corpo e na alma.

Russell Crowe, de The Loudest Voice, acertou a força imperiosa de Roger Ailes, interpretando um déspota que é irônico sobre suas qualidades de ogro, com um vislumbre escondido de vulnerabilidade que só o deixa mais assustador.

Um detalhe que me deixou com uma certe hesitação na mensagem do filme, foi a falta de diversidade racial. Porém, ao pesquisar sobre a emissora e seus casos de assédio, descobri que a rede é uma estufa de pontos de discussão da direita, um mar de rostos brancos e mulheres enfeitadas de saias e sapatos de salto alto. Portanto, a presença, quase que cem por cento, de pessoas brancas no elenco, pode ser compreendida como uma mostra da dificuldade que as pessoas negras possuem no ramo da televisão. Pode ser compreendida, mas não aceita.

Jay Roach usa formulas prontas para dirigir seu docudrama. Pode ser por isso que a quebra da quarta parede desde o início acontece, com Megyn se dirigindo diretamente ao público, olhando para a câmera enquanto ela percorre os escritórios da rede. A conversa com o espectador imediatamente faz da plateia parte de um grupo muito especial da Megyn Kelly. Criando ambição e curiosidade pelo telespectador, que está recebendo informações privilegiadas, vindo de uma das maiores estrelas da rede. O diretor de fotografia, Barry Ackroyd, traz a textura, as sombras e o brilho profissional, das grandes estrelas do ramo.

O problema em Bombshell está na contradição das personagens, Megyn e Gretchen, que vêm com uma bagagem ideológica que complica o santo graal de racionabilidade de Hollywood. O filme personaliza isso em uma conversa entre duas mulheres no final, dizendo com razão que, se alguém tivesse tocado o alarme mais cedo, talvez outras vítimas pudessem ter sido poupadas. Mas isso não era do interesse de Megyn e Gretchen, um altruísmo que o filme não consegue enfrentar completamente.

Por fim, O Escandâlo sabe lidar com as contradições desconfortáveis ​​de sua história, se revelando como um docudrama animado e escandaloso. O filme funciona tão bem quanto, em grande parte por causa de seus atores e da emoção de fofocas infundidas em psicodrama.

*Filme assistindo durante a cobertura do 21º Festival do Rio 2019

Patrick Gonçalves

Carioca, estudante de comunicação, apaixonado por séries e filmes, coleciono DVD's e ingressos de cinema.

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Patrick Gonçalves

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